quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Cor dos olhos pode estar associada à Endometriose

A endometriose, uma patologia crônica, que causa dor pélvica e infertilidade é atualmente um dos grandes desafios da medicina, porque não se sabe a sua causa e não se sabe como tratá-la corretamente.

Diversas pesquisas vêm tentando buscar explicações para a origem da endometriose, suas causas e seus efeitos. As dúvidas são grandes e estamos longe de entender esta doença. 

Buscando decifrar tantos mistérios, um grupo de pesquisadores de Milão, na Itália, estudaram se existiam diferenças entre a cor dos olhos de pacientes com endometriose. Os dados foram publicados pela Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, em outubro de 2014.

Eles acharam uma incidência maior de olhos azuis e menor de olhos marrons em pacientes com endometriose profunda (a que atinge orgãos, como: intestino e bexiga), quando comparado com pacientes sem endometriose. Em pacientes com endometriose no ovário não apresentaram nenhum padrão na cor dos olhos.

Existem duas explicações para tal achado, que podem ser importantes para as futuras pesquisas sobre endometriose. 

Primeiro, genes envolvidos no controle da cor da irís (região colorida do olho) podem estar envolvidos com os genes que são responsáveis pela capacidade de invasão da endometriose. 

Segundo, o cor azul dos olhos pode ser o indicador de uma maior sensibilidade à luz solar, fazendo com que essas pacientes tenham menos exposição ao sol e levando a uma redução da vitamina D corporal. Algumas pesquisas recentes têm demonstrado que a deficiência desta vitamina está relacionada ao desenvolvimento da endometriose.
Como se vê, uma doença cheia de mistérios e enigmas. Infelizmente, ainda estamos há anos de solucionar tantas questões.

                                            Um Feliz Natal a todos!!!!!


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Qualidade Embrionária e Receptividade Endometrial


Por que não engravidamos? Esta é uma das dúvidas mais comuns dos casais que realizam uma fertilização in vitro e não conseguem um resultado positivo. É difícil entender como um embrião aparentemente perfeito não conseguiu se implantar em um endométrio ultrassonograficamente perfeito. O grande mistério está justamente ai. Na verdade, a medicina reprodutiva não é capaz de explicar, a luz dos conhecimentos atuais, o porquê de tanta dificuldade nesta interação. 

Alguns pontos podem ser analisados. 

Em primeiro lugar, a avaliação do embrião e sua classificação em termos de forma e número de células não é capaz de avaliar geneticamente o mesmo, assim um embrião morfologicamente perfeito pode ter alterações genéticas que tornam impossível sua implantação no endométrio e portanto uma gravidez. 

Avaliar geneticamente um embrião é, hoje, possível, através do PGD (diagnóstico genético pré-implantacional). Esta técnica consiste na retirada de uma célula do embrião e realizar a análise do material genético, entretanto, não há consenso para se usar esta técnica em todos os casos, visto que não se sabe os efeitos negativos que a mesma poderia provocar em embriões geneticamente perfeitos. Assim, hoje, deve-se realizar o PGD em casos específicos, como no de casais que apresentam alterações genéticas, com o intuito de não transmitir aos filhos as mesmas alterações. Quando se realiza o PGD, podemos constatar que muitos dos embriões morfologicamente normais, apresentam alterações genéticas incompatíveis com a vida, infelizmente.

Quanto à análise endometrial, as dificuldades são enormes também. É, ainda, impossível saber se o endométrio perfeito ao ultrassom, com espessura e forma considerada ideais, apresenta, realmente, condições ideais de receptividade ao embrião. A interação do endométrio com o embrião é uma área, ainda, bastante desconhecida, pois diversos fatores estão envolvidos nesta conexão e a medicina reprodutiva ainda está longe de decifrar todos esses segredos.

Em resumo, muitas perguntas, muitos mistérios ainda não foram decifrados. A medicina reprodutiva é uma ciência, ainda, jovem. O primeiro bebê de proveta nasceu apenas em 1978, há muito pouco tempo e apesar dos avanços fantásticos nas última décadas, ainda estamos longe, muito longe, de atingir a perfeição, ou melhor, a quase perfeição, por que será muito difícil atingir o número mágico, os 100%.

PS: Este texto é dedicado a todas as minhas pacientes que tentaram e vêm tentando engravidar e que ainda não atingiram a tão desejada gravidez. Escrevo para vocês, com o intuito de tentar com que seja mais fácil compreender o porquê de tantas dificuldades, mas uma coisa é certa, quanto mais tentarmos, mais chances teremos de encontrar o momento certo de transferir o embrião geneticamente perfeito para o endométrio com receptividade ideal. 

Trata-se, portanto, de um método que apesar de todos os avanços é, ainda, um método de tentativas, assim como tentar uma gravidez naturalmente, também, é.

domingo, 21 de dezembro de 2014

SOP: Obesidade Abdominal e Resistência Insulínica

A SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos) é a mais comum desordem endócrina feminina, afetando entre 12 a 21% de mulheres em idade fértil. Pode provocar infertilidade anovulatória (impede a ovulação), aumento do risco cardiovascular e de alterações no metabolismo dos carboidratos, podendo levar à resistência insulínica (estado pré-diabetes) e ao diabetes mellitus. É a principal causa de infertilidade feminina. 

A resistência insulínica (RI) é um fator muito comum nas mulheres com SOP e inférteis. Embora não se saibam exatamente os mecanismos que causam a SOP, sabe-se que a obesidade abdominal, a RI e o estresse oxidativo (aumento da produção de radicais livres) decorrentes das alterações metabólicas são de vital importância para a patogênese (desenvolvimento e manutenção) desta patologia. 

Baseado nisso, pesquisadores chineses e de Hong Kong, realizaram uma pesquisa para tentar entender um pouco mais sobre as alterações metabólicas que ocorrem na síndrome dos ovários policísticos. Os dados desta pesquisa foram publicados através da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, em outubro deste ano.

 A pesquisa demonstrou que cerca de 42% das pacientes com SOP têm sobrepeso ou obesidade, essa disfunção adiposa (do tecido gorduroso do corpo) pode levar ao diabetes mellitus e à síndrome metabólica (alterações dos níveis de colesterol e açucar, aumento da pressão e concentração de gordura abdominal). Já a resistência insulínica está presente entre 50 a 70% das mulheres com ovários policísticos.
 
Esse estresse oxidativo no tecido adiposo pode contribuir pra problemas metabólicos, já que o tecido adiposo é, hoje, visto não só como local de acúmulo de gordura mas também como um órgão endócrino que contribui para regular diversas funções metabólicas. 

Assim os radicais livres em excesso no tecido adiposo estariam aumentados nas mulheres com ovários policísticos contribuindo ainda mais para a desrregulação metabólica típica desta patologia. 

Portanto, as alterações no tecido gorduroso parecem ser mais um fator envolvido nas alterações do metabolismo tão comuns nas mulheres com SOP. Só existem duas opções para um melhor equilíbrio metabólico desta doença: realizar atividades físicas e ter uma dieta balanceada. Manter o peso e o corpo em equilíbrio é a melhor alternativa para controlar todos os efeitos metabólicos ruins e muitas vezes devastadores que envolvem a síndrome dos ovários policísticos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sobre a saúde das crianças concebidas in vitro

Importante reflexão escrita pelo especialista e amigo Dr. Bruno Ramalho.

"A interferência das técnicas de fertilização in vitro (FIV) sobre a saúde das crianças assim concebidas sempre merecerá a minha atenção. pelas evidências atuais, ao meu ver, os casais submetidos a tratamentos bem sucedidos devem ser tranqüilizados, principalmente quando estivermos diante de gestações de bebês únicos e não prematuros. É bem sabido que gestações múltiplas são as principais causas de parto prematuro, baixo peso ao nascimento e mortalidade de recém-nascidos após tratamentos de alta complexidade, na proporção do número de embriões transferidos ao útero da mulher. Felizmente, isso tem se resolvido pela transferência eletiva de um ou dois embriões, sem prejuízo das taxas de sucesso.
Problemas genéticos e epigenéticos, e defeitos congênitos podem, de fato, ser mais frequentes entre crianças concebidas pelas técnicas de reprodução assistida, mas, para muitos pesquisadores, a infertilidade em si estaria mais relacionada à saúde da prole que o seu tratamento. É perfeitamente aceitável, assim, a hipótese de que crianças concebidas in vitro oriundas de pacientes não necessariamente inférteis (por exemplo, de óvulos congelados por motivação social, de uniões homoafetivas ou de pacientes sobreviventes ao câncer) tenham evoluções distintas e ainda não exploradas.

Havendo preocupações, os defeitos congênitos, sem dúvida, figuram entre as principais. Na prática, contudo, a estimativa do risco é relativamente tranquilizadora. Minha leitura de dados da literatura é a seguinte: no Brasil, em que a prevalência de malformações congênitas é de aproximadamente 0,8% entre os nascidos vivos, a cada dez mil nascimentos de crianças concebidas espontaneamente teríamos até 80 acometidas; a cada dez mil brasileiros concebidos por FIV, seriam 84 os acometidos."

Autor: Bruno Ramalho

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Riscos Maternos após Fertilização in Vitro

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre as mulheres, superando qualquer tipo de câncer. 

A idade avançada, o sobrepeso e a obesidade são fatores de risco para esses problemas e, também, provocam subfertilidade e infertilidade. Além disso a síndrome dos ovários policísticos (SOP), que é a principal causa endocrinológica de infertilidade feminina, aumenta, por sua vez, em sete vezes o risco de infarto do miocárdio (coração) nas mulheres com esta patologia quando comparadas a mulheres sem SOP. 

Esses dados levaram pesquisadores da Universidade de Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, a analisar a incidência de hipertensão (pressão alta), diabetes mellitus e doença coronariana em pacientes que realizaram fertilização in vitro (FIV).

A pesquisa demonstrou uma maior incidência de hipertensão em mulheres que tiveram filhos nascidos após FIV do que naquelas que tiveram filhos após concepção natural, assim como uma tendência maior de infarto do miocárdio. A incidência de diabetes mellitus, porém, não foi diferente. 

Portanto, parece haver uma maior incidência de doença cardiovascular futura em pacientes que realizaram fertilização in vitro.
Esses dados devem-se provavelmente aos fatores de risco que as mulheres inférteis apresentam, como: sobrepeso, obesidade, alterações dos níveis de colesterol, alterações dos níveis de açucar (resistência insulínica, intolerância à glicose e diabetes mellitus), sedentarismo e síndrome dos ovários policísticos, por exemplo. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Atividade Física e Qualidade Seminal

Várias pesquisas apontam uma drástica redução da qualidade dos espermatozóides (seminal) desde o final do século passado até a primeira década do século XXI. 
Acha-se que as causas são multifatoriais, como: o estilo de vida, a epidemia da obesidade, o aumento da idade paterna, a queda da qualidade da dieta e as mudanças na prática de atividades físicas. As pesquisas são contraditórias quando tentam relacionar atividade física com qualidade seminal. A maioria estabeleceu uma relação deletéria (ruim) entre atividades físicas extenuantes em atletas e uma queda da qualidade seminal, entretanto pouco se sabe sobre a realização de atividades regulares em pessoas que não são atletas profissionais e a fertilidade masculina. 

Baseado nestas evidências, foi realizada uma pesquisa na Universidade de Murcia, na Espanha e os dados foram publicados na Fertility and Sterility, a revista da ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva), em outubro de 2014.

Foram avaliados homens jovens, entre 19 e 22 anos, que realizavam pelo menos cinco horas de atividade física semanal, de moderada a forte intensidade. 

Não foram encontradas evidências negativas da atividade física com qualidade seminal. Sugerindo que existe uma diferença que depende da intensidade dos exercícios. A maioria dos estudos têm avaliado atletas e homens que já apresentavam infertilidade e sugeriram que o ciclismo pode influenciar negativamente a concentração espermática e que em atletas pode haver uma diminuição na movimentação e forma dos espermatozóides. 

Um outro estudo, realizado nos EUA, demonstrou efeitos positivos da atividade física moderada com maiores concentrações espermáticas (maior número de espermatozóides). 

Em resumo, a prática de atividade física moderada, com duração de até cinco horas por semana, não alterou os parâmetros seminais em homens jovens, ou seja, parece que o equilíbrio é sempre a melhor opção e mais dados são necessários para se estabelecer uma conexão específica.  

domingo, 30 de novembro de 2014

Auto-Monitorização Ultrassonográfica simplifica FIV


O acompanhamento por ultrassom (US) em ciclos de reprodução assistida (RA) é algo rotineiro e fundamental, sobretudo nos ciclos de fertilização in vitro (FIV). Pelo US é possível avaliar o crescimento e desenvolvimento folicular até o ponto final da estimulação ovariana. Essa parte do tratamento exige calma e dedicação da paciente e da equipe médica, pois tratam-se de exames seriados e quase que diários. Isso torna o processo mais trabalhoso para todos. 

Como esta parte do tratamento poderia ser simplificada? Um grupo de pesquisadores da Universidade de Ghent, na Bélgica, procurou desenvolver um método de auto-avaliação, assim a própria paciente poderia realizar seus ultrassons em casa. Seus dados foram publicados na Human Reproduction, revista da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, no último mês de setembro. 

O sistema de monitoramento domiciliar consiste de um laptop com software desenvolvido para tal, mais um transdutor vaginal com conexão USB. As pacientes são treinadas a captar as imagens em forma de vídeo pelo US e enviar ao médico pela internet. As medidas dos folículos (óvulos) e do endométrio (parte do útero onde ocorre a implantação embrionária) são realizadas pelos profissionais ao receberem as imagens. Os vídeos, realizados pelas próprias pacientes, tiveram que ter pelo menos 60 a 90 segundos para cada ovário e 30 segundos para o útero, a própria paciente checa as imagens antes de gravá-las, as enviando sem seguida via internet para a clínica. 

A maioria das pacientes aprendeu rápido todos os passos do processo. Os vídeos, ao serem acessados pelo médico, podem ser parados e movidos para frente ou para trás, permitindo a medição apropriadamente. Pelo próprio software (internet) o médico envia as informações de volta às pacientes, sobre doses de medicações a serem utilizadas ou alteradas. A comunicação por email ou telefone foi feita sempre que necessário. 

Foram analisadas 123 pacientes, sendo 61 com uso desta nova técnica de auto-avaliação. 

Como resultado o número de óvulos maduros foi similar, sem diferença entre os dois métodos de monitorização (o tradicional versus o auto-monitoramento). As taxas de gravidez também não diferiram. As pacientes referiram mais satisfação, mais participação ativa do parceiro e menos estresse, com esse novo método. 
No auto-monitoramento os custos foram menores, a distância percorrida também foi menor (paciente não precisou se deslocar para a clínica quase que diariamente), entretanto mais ultrassons foram realizados por quem utilizou o método de auto-monitoramento e mais tempo foi gasto pelos médicos na avaliação das imagens via internet. 

Em conclusão, este novo método de avaliação pode ser uma opção futura e bem viável. Com certeza a aplicação da tecnologia irá facilitar a análise e o monitoramento das pacientes em tratamentos de RA, que venha o futuro. 

Análise Genética Pré-Implantacional e Riscos Futuros



O PGD (diagnóstico genético pré-implantacional) é, hoje, uma ferramenta que pode ser utilizada na detecção de anormalidades genéticas de embriões antes dos mesmos serem implantados no útero nos ciclos de fertilização in vitro. Essa técnica pode ser utilizada para evitar a transmissão de problemas dos pais para os filhos, quando um dos pais apresenta alguma alteração genética ou quando se quer diminuir o risco de malformações fetais em casais de risco, como em mulheres acima de 40 anos, por exemplo. O PGD consiste em se realizar uma "biópsia" do embrião (retirada de uma parte do embrião), que será analisada geneticamente.

Entretanto não se sabe quais os efeitos deste processo a longo prazo, isto é, nas crianças e adultos frutos de embriões em que se fez o diagnóstico genético pré-implantacional. 

Pensando nisso pesquisadores italianos, norte-americanos e poloneses realizaram uma pesquisa e publicaram seus dados na Human Reproduction, a revista da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, no último mês de setembro.

Esses pesquisadores avaliaram as consequências da biópsia embrionária (retirada da célula do embrião para realizar o PGD) em embriões de ratos machos. 

Os embriões que foram submetidos ao PGD apresentaram maior ganho de peso após o nascimento e diminuição de alguns reflexos, mas não apresentaram diminuição de suas habilidades de comunicação e nem capacidade de reagir a situações de estresse. 

Assim eles concluíram que o PGD pode ser fator de risco para alterações neurológicas e metabólicas. Logicamente esses dados precisam ser confirmados em seres humanos, mas serve de alerta para que tenhamos cautela com o uso das novas tecnologias na medicina reprodutiva. 

O PGD deve ser encarado como uma alternativa para casos de casais sabidamente afetados por alterações genéticas, mas tem que ser muito bem avaliado antes de ser utilizado para a maioria dos casais. 
Há que ser ter muita cautela com o uso de tantas e novas tecnologias. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Embolização de miomas




Os miomas uterinos são tumores benignos do útero que estão associados à dor pélvica, sangramentos excessivos e infertilidade. Existem várias formas de tratamento, desde cirurgias ao uso de medicações, entre outras, como: a embolização e o uso de ondas de ultrassom. 

A embolização de miomas não é uma técnica recente, entretanto muitas dúvidas existem com relação a seus resultados futuros. Trata-se do uso de microesferas que terão a função de bloquear o fluxo sanguíneo para o mioma. Assim o mioma sem irrigação sanguínea sofre um processo de degeneração (morte), diminui de tamanho e deixa de causar problemas.
Uma das maiores dúvidas é quanto à preservação da fertilidade futura após uma embolização. 

Baseando-se nisso, pesquisadores da Universidade Católica Del Sacro Cuore, em Roma investigaram as possíveis complicações da embolização de miomas, os dados desta pesquisa foram publicados em setembro de 2014 na Human Reproduction, a revista da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia). 

Foram analisadas 288 mulheres submetidas a embolização. Dessas, 48 (16,6%) mulheres tiveram complicações num período de cinco anos. A maior taxa de complicação foi a expulsão do mioma (39%), que foi espontânea em 68% das vezes e precisou de intervenção médica em 32% dos casos. Oito (3% do total) dessas mulheres precisaram realizar outro procedimento, como: histeroscopia para miomectomia (retirada do mioma) ou ressecção de aderências e laparoscopia para miomectomia, ou seja, a embolização ou não foi suficiente para resolver o caso ou causou lesões no endométrio (sinéquias uterinas - cicatrizes que podem dificultar muito uma gravidez) nesses  poucos casos, um detalhe importante é que a presença de miomas submucosos (miomas localizados na camada interna do útero) foi um fator que aumentou em duas vezes o risco de complicações. 

Como conclusão, tem se que a embolização é segura, com baixas taxas de complicações, assim esta técnica pode ser utilizada, mas deve-se infividualizar cada paciente e sempre se deve levar em conta a preservação do futuro reprodutivo da mulher, se assim for preciso.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Risco de Câncer x Reprodução Assistida


Uma pergunta muito frequente feita pelos casais que se submeterão a um tratamento de reprodução assistida (RA), como uma fertilização in vitro, é sobre o risco de malformações e problemas futuros, como a incidência de câncer, para os filhos. 

Apesar dos dados serem incongruentes e de, até os dias atuais, não existirem dados suficientes para se estabelecer uma relação, muitas pesquisas são realizadas na tentativa de se obter uma resposta definitiva. 

Um recente estudo (publicado em setembro deste ano na revista da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia), realizado nos países nórdicos: Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega, analisou o risco de câncer em crianças e adultos jovens concebidos após tratamentos de reprodução assistida. Foram avaliados dados de 1982 até 2007, de 92000 crianças nascidas após tratamentos de reprodução assistida. 

Não houve um aumento das taxas gerais de câncer entre crianças após tratamentos de reprodução assistida quando comparados com crianças após concepção espontânea. A leucemia foi o tipo de câncer mais comum, mas não houve diferença entre os dois grupos. Entretanto, houve uma incidência um pouco maior de câncer de sistema nervoso central e de tumores de pele (como os melanomas) em crianças após tratamentos de RA, no entanto esses dados devem que ser analisados com cautela, já que foram achados isolados. 

Alguns estudos já demonstraram um risco aumentado para leucemia, câncer de fígado (hepatoblastoma) e rabdomiosarcoma (um câncer de células musculares) após tratamentos de RA, mas não há consenso e a conclusão é a mesma: não há risco geral aumentado para câncer em criancas nascidas após tratamentos de RA. O que podemos concluir é que em termos gerais não há um risco aumentado, muito embora, em determinados casos possa haver uma tendência de aumento do risco de certos cânceres, mas todas as conclusões para isso ainda são pouco claras.

Os pesquisadores deste estudo concluiram que estas informações podem ser consideradas tranquilizadoras para os casais que realizarão um procedimento de reprodução assistida, assim como para os médicos especialistas. Esperemos que num futuro próximo todas essas incertezas sejam sanadas. 



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Idade da Menarca x Fertilidade

Na medicina reprodutiva, existem algumas perguntas que ainda não têm uma resposta definitiva. Uma delas refere-se a idade da mulher na primeira menstruação. Será que a idade feminina quando ocorre a primeira menstruação (menarca) estaria associada à subfertilidade ou infertilidade? 
Considerando-se que a primeira menstruação é o ponto inicial de vida fértil de uma mulher, ou seja, quando ela começa a ovular, então isto poderia ter alguma relação com a fertilidade futura. 

Pesquisadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, tentaram responder a esta pergunta e publicaram os resultados de sua pesquisa na Human Reproduction, a revista mensal da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia) em setembro deste ano. 

A pesquisa avaliou 73107 mulheres que ficaram grávidas entre os anos de 1996 e 2002, na Dinamarca. A idade média da primeira menstruação foi de 13 anos. Metade dessas mulheres atingiu a gravidez em menos de dois meses, 32% demoraram mais de 6 meses e 16% mais de 12 meses. 

As mulheres que tiveram a menarca com 15 ou mais anos demoraram mais tempo para engravidar do que as que tiveram a primeira menstruação aos 13 anos. Assim como as mulheres com menarca aos 11 anos demoraram menos para engravidar do que as mulheres que menstruaram a primeira vez aos 13 anos. 
Assim, foi observada que uma menarca mais tardia estaria associada a um risco maior de subfertilidade e infertilidade. 

Alguns estudos recentes, também, acharam uma relação inversa entre níveis de AMH (hormônio antimulleriano), um marcador de reserva ovariana (indicativo da quantidade de óvulos que a mulher apresenta) e a idade da menarca. Quanto mais tarde a primeira menstruação mais baixo seria o nível deste hormônio durante o período de vida fértil e portanto menor a reserva ovariana e maiores as dificuldades para engravidar. 

Esta pode ser a explicação para os achados desta pesquisa, embora existam controvérsias e mais estudos sejam necessários para se estabelecer a verdadeira conexão entre fertilidade e idade feminina na ocasião da primeira menstruação.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O que têm a ver óvulos com hambúrgueres?!

Um artigo 21/10/2014 na Folha de São Paulo, "Congelar óvulos não é como congelar hambúrguer", traz à tona a discussão sobre o congelamento de óvulos. Uma visão pessimista, na minha opinião. Tem seu mérito por estimular o debate, mas discordo de algumas afirmações.
Troquei ideias com a autora pelo Twitter, mas por lá, como todos sabem, é difícil estabelecer um debate bacana. Minhas principais considerações: 
(1) não sou a favor da iniciativa das empresas citadas de oferecer o congelamento como benefício às funcionárias, pois entendo ser aquele uma demanda da mulher, em mão única e de foro íntimo; 
(2) o texto me dá a impressão de que, para a jornalista, na atuação médica predomina a má fé, a "venda de uma ilusão"; prefiro não acreditar nessa suposta promessa de sucesso, pois não é o que pratico nem o que vejo nos meus círculos profissionais;
(3) o congelamento de óvulos com motivação social (adiamento da maternidade) é uma prática recente e, portanto, passível de ampla discussão; mas é a tentativa de preservar a fertilidade, jamais será sua garantia;

(4) a atuação ética em medicina reprodutiva implica, invariavelmente, a oferta de realidade aos casais que buscam auxílio, ou seja, a transmissão da noção de que nós não DESAFIAMOS a natureza, mas apenas pretendemos NOS UNIR A ELA em situações adversas.

Fonte: Artigo escrito pelo Dr.Bruno Ramalho em seu blog.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Os limites naturais da fertilidade e as chances reais de procriação tardia

Nos últimos meses, temos visto ressurgir a tendência à procriação tardia como tema de reportagens em revistas e jornais de grande circulação. Cabe a nós, ginecologistas e, principalmente, especialistas em medicina reprodutiva, estar atentos a tais matérias, para que a interpretação devida lhes seja dada junto às mulheres que atendemos no dia-a-dia. Infelizmente, dissemina-se hoje com descuido a idéia de que os avanços da medicina proporcionam a maternidade a qualquer tempo além das fronteiras naturais. Sabemos que essa é uma inverdade e temos o dever de prestar à sociedade esclarecimentos.

De acordo com o sugerido por um estudo publicado em 2012, metade das mulheres ficariam chocadas ao serem informadas sobre a queda da fertilidade entre os 35 e os 45 anos de idade. Dentre as entrevistadas, um terço acreditava na persistência de algum grau de fertilidade até a menopausa, por volta dos 50 anos, e que a gravidez aconteceria sem dificuldades aos 40 anos de idade.

Os dados traduzem dificuldades e preocupações diárias do infertileuta, que tem o dever ético de esclarecer às mulheres naquela faixa etária (ou com idade maior) que, embora se sintam jovens e saudáveis, e gozem de plena capacidade profissional, podem já ter sofrido efeitos negativos do tempo sobre a fertilidade.
A preocupante desinformação observada sustenta-se, provavelmente, por crenças equivocadas que vinculam a garantia da fertilidade a estilo de vida saudável, histórico familiar de fertilidade abundante e informações incorretas de amigos e da mídia, principalmente com relação às gestações de celebridades em idade avançada.

Estima-se que 75% das mulheres que iniciam as tentativas de engravidar aos 30 anos darão à luz um nascido vivo dentro de 12 meses, enquanto apenas 44% o farão quando o início das tentativas ocorre aos 40 anos de idade. Em grandes populações, enquanto a infertilidade esteve presente em cerca de 30% das mulheres casadas com 35 a 39 anos, chegou a 64% entre 40 a 44 anos.

Foi publicado recentemente na revista Human Reproduction (uma das mais importantes revistas científicas na área de medicina reprodutiva no mundo) um estudo interessante abordando de forma inovadora a influência da idade da mulher sobre o potencial reprodutivo. O trabalho intitulado Too old to have children? Lessons from natural fertility populations demonstrou queda progressiva do potencial reprodutivo com o avanço da idade, em padrão semelhante hoje ao que ocorria cerca de dois séculos atrás: queda lenta até um ponto entre os 35 e os 40 anos, depois do qual a queda é vertiginosa.

Sabe-se que tanto a quantidade quanto a qualidade de folículos e gametas femininos relacionam-se inversamente à idade e que uma parcela significativa das candidatas à maternidade tardia serão inférteis quando desejarem gestar. O declínio natural da fertilidade pode ser atribuído a numerosos eventos associados ao avanço da idade, como diminuição da qualidade dos óvulos, frequência e eficiência da ovulação, e da função sexual, aparecimento de doenças uterinas, tubárias ou ovarianas, endometriose, fatores genéticos, tabagismo ou infecções.

E é importante frisar: as técnicas de medicina reprodutiva (como a fertilização in vitro e a injeção intracitoplasmática de espermatozóides) não driblam a interferência negativa da idade feminina sobre a fertilidade. Dados da RedeLatino-americana de Reprodução Assistida pontuam claramente redução significativa das taxas de gravidez em FIV com óvulos próprios à medida que a idade da mulher avança: 41% na faixa etária de 25 a 29 anos; 37% de 30 a 34 anos; 30% de 35 a 39 anos e 15% com 40 ou mais anos.

Uma opção contemporânea é o congelamento dos óvulos em idade jovem, com vistas à procriação futura. Sem dúvida um avanço da medicina reprodutiva nos últimos anos. Chamo atenção para um detalhe muito importante: o congelamento não garante os filhos no futuro, já que ainda restará à mulher a etapa da fertilização in vitro, que lhe dará taxas de sucesso entre 40% e 50% nas melhores perspectivas. E cabe, ainda, lembrar que, há cerca de um ano, a medicina reprodutiva brasileira é regulamentada pela Resolução 2013/2013 do Conselho Federal de Medicina, que limita o uso de técnicas de reprodução assistida a mulheres com idade máxima de 50 anos.

O que recomendar, então? Às mulheres com idade entre 32 e 34 anos, considerada uma faixa etária de conforto, que não esperem muito para dar início à constituição da prole, principalmente se há desejo por mais de um filho. A faixa etária entre 35 e 40 anos é considerada decisiva para a fertilidade. Embora o pessimismo exagerado seja questionável e, por quê não, condenável, recomenda-se que iniciem as tentativas de engravidar o quanto antes ou que se busque orientação de um especialista, caso ainda não seja, individualmente, momento ideal para a procriação. Depois dos 40 anos, enfim, fica mais difícil realizar o sonho da maternidade biológica.

Texto escrito pelo especialista Bruno Ramalho, com excelente visão e alerta sobre os perigos da idade para a fertilidade humana, sobretudo para a fertilidade feminina.




terça-feira, 21 de outubro de 2014

Primeiro Nascimento após Transplante Uterino - Marco Histórico

Nasceu no início deste mês, mais precisamente no dia 04 de Outubro de 2014, o primeiro bebê após transplante uterino. O nascimento ocorreu na Suécia, e foi fruto de anos de estudos e pesquisas de um grupo liderado pelo médico sueco Mats Brännström. Uma mulher de 36 anos recebeu o útero de uma amiga de sua mãe de 61 anos. Antes do transplante, a paciente que tinha uma má-formação desde o nascimento, conhecida como Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hause(ausência congênita do útero), foi submetida a uma fertilização in vitro, na qual obteve 11 embriões. Após o transplante foi realizada a transferência embrionária e atingida a gravidez. Diferentemente da primeira gravidez em útero transplantado, que foi de doadora morta, este foi realizado com doadora viva e de mais de 60 anos, demonstrando que a idade pareceu não influenciar a qualidade uterina.

A primeira gravidez em uma mulher com útero transplantado ocorreu em 2013, na Turquia (noticiamos este fato importante, aqui neste blog em abril de 2013), porém aquela gravidez foi interrompida por um abortamento com oito semanas de gestação.

Agora sim, um marco mais que importante foi alcançado. O nascimento ocorreu após uma cesariana, no oitavo mês de gestação, devido à pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez) e o recém-nascido encontra-se bem.

Após mais de 10 anos de experimentos em animais a equipe do Dr. Brännström pode comemorar e ontem tive o privilégio de assistir a uma palestra deste fantástico pesquisador no Congresso Americano de Medicina Reprodutiva, aqui em Honolulu, no Hawaii. O professor Brännstöm apresentou todos os seus dados e nos mostrou como ocorreu toda a longa caminhada até se atingir este marco histórico. Após o final da palestra o mesmo foi aplaudido de pé por longos minutos. 

Sem dúvida um grande marco para a medicina reprodutiva e uma nova opção para várias mulheres. Na minha opinião trata-se de um fato merecedor de um prêmio Nobel, um verdadeiro divisor de águas para vários problemas relacionados ao útero.

Honolulu, Hawaii, 21 de Outubro de 2014.


Congresso Americano de Medicina Reprodutiva - 2014



O Congresso Americano de Medicina Reprodutiva está sendo realizado esta semana, na cidade de Honolulu, no Hawaii. Trata-se de um dos dois maiores congressos mundiais na especialidade, ocorrendo anualmente e reunindo especialistas de todo o mundo. Momento ímpar de interação, permitindo o contato direto com renomados pesquisadores e especialistas internacionais. Esta é a edição  de número 70 deste magnífico encontro.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

SOP e Diabetes - Fortes Relações


A SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos) é a alteração endocrinológica mais comum nas mulheres em idade fértil, afetando entre 15 a 20% destas. A mulher com ovários policísticos apresenta um risco elevado para apresentar alterações metabólicas, como: diabetes tipo 2, intolerância à glicose e resistência insulínica (estágios pré-diabetes), além das alterações nos níveis de colesterol. Além disso a evolução dos estágios pré-diabetes é mais acelerado nessas mulheres. 

A detecção precoce, as mudanças do estilo de vida e o uso de medicações que são capazes de adiar e até evitar estas progressões. 

Baseado nisso, pesquisadores da Universidade de Istambul, na Turquia, realizaram um estudo para avaliar a progressão da alteração do metabolismo dos açúcares em portadoras da síndrome dos ovário policísticos. O estudo foi publicado na Fertility and Sterility, a revista da ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva) em maio de 2014. 

Os achados dessa pesquisa mostraram que mulheres com SOP tiveram uma progressão mais rápida de um estágio pré-diabetes para o outro quando comparadas com mulheres sem SOP.  Cerca de 4,5% das portadoras de SOP evoluíram dos níveis normais de açucar para a intolerância à glicose (pré-diabetes), comparado com 0,9% da população sem ovários policísticos. Um total de 10,4% de quem tinha SOP progrediu da intolerância à glicose para o estágio de diabetes mellitus tipo 2, enquanto nenhuma mulher sem ovário policístico atingiu o estágio de diabetes.
Essas progressões foram maiores nas obesas. Refletindo que a alimentação inadequada e o sedentarismo são fatores de risco para o desenvolvimento acelerado das doenças metabólicas. Assim, a realização de exames para se detectar essas alterações é importantíssima. 

A importância aumenta ainda mais se levarmos em conta o ponto de vista reprodutivo, visto que o aumento dos níveis de açúcar aliado à obesidade são fatores fortes para provocar infertilidade, agravando mais ainda o quadro de não ovulação típico da paciente com SOP, além de serem fator de risco para problemas durante a gestação, como: o diabetes gestacional, as malformações fetais, a hipertensão gestacional e a pré-eclampsia (pressão alta da gravidez), por exemplo. 

A SOP não se trata apenas de uma alteração ovulatória, suas alterações metabólicas são gigantescas e infelizmente, muitas vezes ignoradas. 
Combater essas alterações é tão importante quanto regular a menstruação e a ovulação, permitindo o aumento da fertilidade. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Estamos preparados para congelar sempre?


Cada vez mais evidências sugerem que transferir embriões congelados após um ciclo de fertilização in vitro, parece ser uma alternativa boa e que no mínimo traria os mesmos resultados da transferência a fresco (embriões antes do congelamento).


Mais e mais estudos vem tentando demonstrar que essa nova abordagem é segura e eficaz. 
Seria uma ótima alternativa para se evitar, por exemplo, casos de síndrome de hiperestímulo ovariano e de gemelaridade. 

Mas será que estamos preparados para usar esse artifício de maneira rotineira? Se levarmos em consideração o fato que este tipo de transferência parece permitir ao embrião um ambiente endometrial mais receptivo, com um nível hormonal mais adequado e sem toda a elevação dos hormônios típica dos ciclos de fertilização in vitro, a resposta é sim, estamos prontos a mudar toda uma rotina dos tratamentos e do laboratório de reprodução assistida. Entretanto grandes dúvidas ainda existem. Se devemos e podemos, então como fazer isso da melhor forma e elevando as taxas de sucesso nos tratamentos de reprodução assistida? Várias questões ainda estão em aberto. 

Não existem, ainda, evidências fortes que nós permitam saber o melhor momento do embrião para o seu congelamento, nem a melhor técnica de congelamento e nem que efeitos a criopreservação poderia trazer ao embrião. Embora essa nova estratégia seja real, atual e promissora, é difícil dizer se realmente iremos fazer sempre assim num futuro próximo. 

Repetindo a pergunta novamente.  Estamos preparados pra congelar sempre? Eu diria que, ainda, não. Precisamos individualizar cada caso, pesar os fatores positivos e negativos e decidir a melhor opção especificamente para cada caso, pois cada endométrio reflete uma paciente e cada paciente é um ser único e portanto ímpar. Assim, não podemos tratar todos da mesma forma. 

É preciso que novos estudos controlados e randomizados comprovem em definitivo que o congelamento total é seguro e eficaz.  É preciso ter calma, por mais que estejamos tentados e encantados com essa nova estratégia. 

Congelar parece ser um detalhe importante para dar ao embrião o melhor momento para sua implantação no endométrio, mas precisamos ainda de dados mais fortes que nos permitam incorporar definitivamente o congelamento embrionário total como uma rotina do dia-a-dia de um laboratório de reprodução assistida. Afinal de contas, quanto maior a receptividade do endométrio maiores as chances de um bom embrião implantar e resultar numa gravidez segura.

Fonte : Fertility and Sterility (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva - ASRM), edição de Junho de 2014.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Álcool x Fertilidade Masculina

A associação entre o consumo de álcool e a fertilidade masculina já foi alvo de inúmeras pesquisas, os resultados são inconsistentes, mas parece haver uma relação negativa entre o consumo prolongado e em quantidade excessiva com a qualidade e a quantidade dos espermatozóides. 

Entretanto, um recente estudo publicado em agosto de 2014 na Human Reproduction, a revista da ESHRE (Sociedade Européia de Medicina Reprodutiva e Embriologia) não encontrou relações entre o consumo leve e moderado de álcool e uma piora dos níveis seminais. Está pesquisa foi realizada por pesquisadores da Dinamarca, Lituânia e Estados Unidos. 

Foram estudados 8344 homens, destes mais de 60% eram consumidores apenas de cerveja. Não foi achada nenhuma associação entre o consumo leve e moderado de álcool e a qualidade dos espermatozóides. Como apenas 6% dos homens estudados apresentaram consumo excessivo de álcool, não se conseguiu estabelecer uma relação desta ingestão maior com uma piora seminal, devido ao pequeno número de homens analisados com este perfil e nesta pesquisa. 
Entretanto, foi observada uma relação entre o consumo leve, moderado ou excessivo com maiores níveis de testosterona circulantes, provavelmente devido a mudanças no metabolismo da testosterona no fígado. 

Apesar deste estudo não ter o poder de demonstrar relações entre o consumo regular de álcool e uma piora da qualidade seminal, diversos estudos já demonstraram efeitos deletérios do consumo crônico (prolongado) e excessivo de álcool com uma piora dos parâmetros seminais. 

Provavelmente, isto ocorra por um dano provocado pelo álcool às células produtoras de testosterona, as células de Leydig, e por alterar toda a produção hormonal que vem desde o cérebro, alterando o eixo hipotálamo-hipófise-testículo, além dos efeitos negativos no fígado, levando a uma produção menor das proteínas responsáveis pela circulação da testosterona no organismo. 

Em resumo, a melhor opção, sempre, parece ser o equilíbrio. O uso social do álcool pode não ser tão deletério à fertilidade masculina, mas o exagero pode, a médio e longo prazo, levar a prejuízos da mesma. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Estresse x Qualidade Seminal

Há tempos os efeitos do estresse na fertilidade humana é alvo de estudos. Algumas pesquisas já demonstraram os efeitos negativos do excesso de estresse na ovulação e na produção de espermatozóides, além de efeitos ruins na gestação, aumentando, por exemplo, as taxas de abortamentos.

No último mês de agosto, foi publicado, na Fertility and Sterility, a revista mensal da ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva) um estudo que tentou avaliar as relações entre o estresse masculino e a qualidade e quantidade dos espermatozóides. A pesquisa foi realizada nas Universidades de Nova Iorque e Nova Jersey, nos Estados Unidos.

O tipo de estresse foi dividido em três categorias: estresse no ambiente de trabalho, estresse no dia-a-dia e o estresse percebido (situações em que o próprio homem percebeu o momento estressante).

Não foi encontrada nenhuma relação entre o estresse no trabalho e quaisquer alterações seminais. 
O estresse rotineiro demonstrou efeitos ruins na qualidade dos espermatozóides, assim, quanto maior o estresse diário, pior a movimentação e a forma dos espermatozóides. 

Já com relação a percepção de momentos de estresse, ou seja, quanto mais eventos diários foram percebidos pelos homens como causadores de estresse, maiores foram as alterações em movimentação, forma e quantidade de espermatozóides, demonstrando que a percepção do estresse parece ser mais importante que uma rotina diária estressante imposta ao homem.

Logicamente, esses são resultados de apenas um estudo, mas cada vez mais publicações têm associado o estresse a uma piora da fertilidade masculina e também da feminina. 
Combater o estresse é importante e fundamental para que se tenha uma boa fertilidade.

domingo, 31 de agosto de 2014

Consumo excessivo de açucar afeta espermatozóides


Os atuais hábitos alimentares tendem a uma ingestão aumentada de carboidratos (açucares) e como se sabe o excesso de açucar afeta todo o metabolismo, parecendo, também, interferir na fertilidade de homens e mulheres.

Nos homens, a produção dos espermatozóides pode ser prejudicada pelo consumo excessivo de carboidratos.

Pesquisadores de Harvard e da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, realizaram um estudo para identificar que alterações o açucar, consumido em grande quantidade, provocaria nos espermatozóides. Essa pesquisa foi publicada em julho deste ano na Human Reproduction, a publicação mensal da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia.

Foi analisado o consumo de bebidas com alto teor de açucar, como: refrigerantes cafeinados ou não (visto que o excesso de cafeína também parece afetar os espermatozóides) e chás gelados, em homens entre 18 e 22 anos, portanto em homens jovens.

Os resultados desta pesquisa demonstraram que quanto maior o consumo de bebidas com altas concentrações de açucar menor a motilidade progressiva (movimentação ativa) dos espermatozóides, este dado aconteceu independente do nível de cafeína, ou seja, o açucar assim como a cafeína em excesso parecem provocar uma diminuição na movimentação dos espermatozóides.

Os mecanismos pelos quais o consumo excessivo de açucar afeta a motilidade seminal ainda não são completamente compreendidos, mas acha-se que a resistência insulínica (dificuldade do hormônio insulina em metabolizar o açucar) provocada pelo uso excessivo de carboidratos aumenta o estresse oxidativo (maior formação de radicais livres) inclusive a nível testicular, afetando a movimentação espermática. Além disso a obesidade que está associada ao consumo de carboidratos, também, contribui para uma menor motilidade espermática. A contaminação com substâncias químicas, como: bisfenol A e phtalates, presentes nos plásticos dos recipientes em que estão as bebidas, também podem contribuir para as alterações seminais. 

Em resumo, o excesso de consumo de açucares afeta profundamente a fertilidade humana. Nesta pesquisa específica, os efeitos deletérios foram observados na produção de espermatozóides móveis (competentes). 

Não existe segredo, uma dieta equilibrada e balanceada (hábitos de vida saudáveis), é a chave para a boa fertilidade.

sábado, 30 de agosto de 2014

Qualidade Embrionária na Fertilização in Vitro

Uma pergunta constante dos casais que se submetem a uma fertilização in vitro é se a qualidade do embrião afetará a saúde dos futuros filhos. 

Para melhor selecionar os embriões a serem transferidos para o útero são utilizados critérios morfológicos (forma, tamanho, número de células dos embriões) para definir uma espécie de nota para o embrião. Quanto maior a nota melhor seria a qualidade embrionária e teoricamente maiores as chances de engravidar. Baseado nisso, pode-se organizar como proceder às transferências embrionárias de uma forma mais coerente.

Sabe-se que quanto maior a qualidade, teoricamente maiores as chances de implantação embrionária no útero e maiores as chances de gravidez, entretanto a associação entre esta nota e os resultados na gravidez e após o parto não são tão bem compreendidos.

Baseado nesta questão, pesquisadores da Universidade de Mcgill, em Montreal, no Canadá, publicaram um estudo em julho de 2014 na Human Reproduction, a revista mensal da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia), onde tentaram avaliar as relações entre qualidade embrionária e resultados após a transferência.

Foram comparadas transferências únicas (mais uma vez notamos a tendência mundial de transferir somente um embrião) de embriões de boa qualidade versus embriões de qualidade baixa em mulheres com menos de 40 anos, sendo transferidos 1193 embriões de boa qualidade e 348 de qualidade inferior.

As taxas de gestação e nascimentos foram bem superiores no grupo que teve bons embriões transferidos, confirmando o que há tempos já se sabe. Entretanto, não houveram diferenças nas taxas de abortamentos, nem nas complicações maternas na gravidez e nem nas complicações neonatais (nas crianças logo após o nascimento). Assim, não houveram, por exemplo, mais casos de: restrição de crescimento intrauterino, baixo peso ao nascimento, trabalho de parto prematuro, pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez), diabetes gestacional e malformações fetais.

Portanto, a qualidade embrionária não parece aumentar os riscos obstétricos, neonatais e nem aumentou o número de malformações embrionárias. 
Logicamente, são necessários mais estudos controlados e mais dados para que possamos confirmar esses achados.



 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Alterações Endometriais x Ovários Policísticos

Sabe-se que as pacientes com a síndrome dos ovários policísticos (SOP) apresentam muitas vezes sobrepeso ou obesidade, além de terem uma maior propensão para desenvolver a resistência insulínica (RI), que trata-se de uma alteração metabólica que ocorre antes do estabelecimento do diabetes mellitus (estágio pré-diabetes).

A RI parece interferir no bom funcionamento do endométrio, alterando sua capacidade normal e diminuindo sua receptividade ao embrião. Como a resistência insulínica ocorre mais frequentemente em pacientes com sobrepeso e obesidade, e a perda de peso provoca a diminuição da RI, acha-se que com a redução do peso a adequada função endometrial poderia ser reestabelecida.

Baseado nestes dados, pesquisadores da Universidade de Karolinska, em Estocolmo, na Suécia realizaram um estudo para comprovar os efeitos benéficos da perda de peso no endométrio de pacientes com SOP e RI. Os dados desse estudo foram publicados na revista mensal da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia), em julho de 2014.

O estudo demonstrou que uma mudança do estilo de vida (alimentação balanceada e atividade física regular), levando a uma perda de apenas 4,7% do peso corporal, provocou a regulação da menstruação em 65% das pacientes acima do peso e com ovários policísticos (a menstruação típica da SOP é caracterizada por atrasos frequentes). 

Além disso, houve um aumento dos receptores de insulina (hormônio que regula os níveis de açucar no sangue) a nível endometrial (o nível desses receptores está diminuido na RI), fato este que parece melhorar a função endometrial em termos de receptividade ao futuro embrião, restaurando o equilíbrio nesta região tão importante para que a gravidez possa ocorrer.

Portanto, pode-se concluir mais um efeito benéfico dos bons hábitos de vida e da manutenção adequada do peso para a fertilidade humana, neste caso especificamente para pacientes com SOP, excesso de peso e resistência insulínica. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Tabagismo materno afeta ovário fetal


Os efeitos maléficos e negativos do tabagismo sobre a fertilidade masculina e feminina já estão estabelecidos. Várias pesquisas ao longo dos últimos anos demonstraram que fumar diminui a fertilidade humana, por afetarem, espermatozóides, óvulos, embriões, além do endométrio (camada interna do útero) tornando esta região hostil à implantação embrionária.

Existem evidências de que o ato de fumar durante a gravidez afetaria também o desenvolvimento do ovário fetal, fazendo com que o recém-nascido do sexo feminino já tenha ao nascimento uma fertilidade afetada e diminuída. 

Pesquisadores ingleses e franceses realizaram uma pesquisa para tentar entender os efeitos deletérios do tabagismo no ovário fetal, publicando seus dados na Human Reproduction, a revista da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, em julho de 2014.

Foram identificados, em gestantes fumantes, níveis elevados de estrógeno (um dos hormônios femininos) no ovário fetal, além de alterações em quatro genes que regulam o desenvolvimento ovariano fetal. Essas alterações parecem contribuir para a diminuição futura da fecundidade e fertilidade. O entendimento completo dos mecanismos que afetam o desenvolvimento do ovário fetal devido ao hábito de fumar ainda não são compreendidos, mas parecem ser evidentes.

Esta pesquisa demonstrou mais um efeito ruim do tabagismo na fertilidade, desta vez comprometendo a fertilidade futura de crianças expostas durante a gestação. 
Fumar realmente não combina com uma boa fertilidade.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Novidades Congresso Brasileiro Reprodução Assistida 2014


Sempre após um congresso, novas ideias surgem, velhos pensamentos caem e diferentes estratégias aparecem. Após muitas palestras e discussões, um coisa é certa, a importância de se estudar, discutir e compartilhar o conhecimento é fundamental para o avanço da medicina, em nosso caso para a medicina reprodutiva. Vejamos alguns dos pontos mais importantes discutidos neste mês de agosto em Salvador, Bahia, no XVIII Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida.

1- Endometriose
O manejo da endometriose na paciente infértil ainda é uma questão controversa, mas à luz dos conhecimentos atuais, parece que quanto menos intervenção cirúrgica existir, melhor. A fertilização in vitro parece ser a melhor opção, sobretudo nas endometrioses moderadas e graves, como as que atingem os ovários e o intestino, por exemplo.

2- Vitamina D
Cada vez mais evidências sugerem que a deficiência de vitamina D pode provocar efeitos ruins na implantação embrionária, na movimentação dos espermatozóides e no metabolismo dos carboidratos (açucares), portanto adequados níveis de vitamina D devem ser buscados.

3- Avaliação da reserva ovariana
Começam a surgir algumas fórmulas matemáticas combinando os dois principais marcadores de reserva ovariana (o que reflete a quantidade de óvulos), o AMH (Hormônio antimulleriano) e CFA (Contagem de folículos antrais). Há tempos é sabido que o AMH e CFA são os melhores exames para se determinar a reserva de óvulos de uma mulher, a novidade é o surgimento de fórmulas que agregam esses dois parâmetros, mostrando uma teórica superioridade frente às medições isoladas.

4- Transferência embrionária
Acompanhando as tendências dos últimos anos, a transferência única de embrião, se possível em estágio avançado (blastocisto) deve ser o objetivo dos ciclos de fertilização in vitro, aumentando assim as taxas de gravidez e diminuindo as taxas de gestação múltipla.

5- Gestação múltipla
Conforme escrito no item anterior, deve-se a todo custo evitar a gravidez múltipla, engravidar de gêmeos já não é visto como um sucesso completo dos tratamentos de reprodução assistida, o sucesso maior é obter-se uma gravidez única.

6- Congelamento embrionário
Cada vez mais aparecem evidências que demonstram melhores taxas de gravidez quando se realiza a transferência embrionária posteriormente ao ciclo de fertilização in vitro, evitando-se assim transferências embrionárias em um ambiente sob efeito extremo do uso das medicações hormonais, o que ocorre durante a estimulação ovariana para a fertilização in vitro.

7- Diagnóstico genético pré-implantacional (PGD) e  rastreio genético pré-implantacional (PGS)
O uso das técnicas de diagnóstico genético pré-implantacional têm seu uso não contestado para se evitar a transmissão de doenças aos filhos, entretanto o uso rotineiro dessa técnicas (PGS) para casais sem alterações genéticas ainda é controverso, com muitos dados demonstrando o não aumento das taxas de gravidez nesses casos.

8- Obesidade 
Mais uma vez, mais e mais estudos demonstram os efeitos maléficos da obesidade na fertilidade, tanto em homens quanto em mulheres. A recomendação é sempre a mesma: redução de peso, atividade física e uma boa alimentação e se necessário deve-se realizar a cirurgia bariátrica.

9- Simplificar os tratamentos
Novas drogas e formas de se administrar as medicações hormonais já existem, na procura por tratamentos menos agressivos e menos estressantes para as pacientes. Assim, hormônios que só precisam de uma injeção semanal já estão sendo utilizados e futuramente o uso de hormônios na forma oral, sem a necessidade de injeções, parece ser algo promissor.

10- Receptividade endometrial
Assunto cada vez mais visado e estudado. Como achar o momento ideal para que o endométrio esteja pronto a receber o embrião? A receptividade endometrial ao embrião ainda é um mistério, mas exames e novas técnicas, como a injúria endometrial (agressão mecânica ao endométrio antes dos ciclos de fertilização in vitro) parecem ajudar a achar o ponto  ideal para transferir o embrião.

Essas foram as principais avaliações positivas que vi neste congresso, podemos notar que os avanços são constantes e evidentes, muito embora os mistérios da reprodução assistida ainda sejam inúmeros.

Texto escrito após o XVIII Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida, realizado de 20 a 23 de agosto de 2014, em Salvador, Bahia.