sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Acupuntura na Fertilização in Vitro


Desde os primeiros estudos publicados sobre o uso da acupuntura como tratamento adjuvante aos ciclos de Fertilização in Vitro (FIV), há mais de 10 anos, vários questionamentos vem sendo feitos sobre o real benefício desta técnica milenar. 

Existe uma gama enorme de pesquisas evidenciando efeitos positivos do seu uso no aumento das taxas de gravidez após FIV. Porem, grandes dúvidas ainda existem.

Existe realmente benefício? Pode haver algum malefício?
Será que o benefício é somente devido a um efeito placebo (efeito positivo de uma medicação que ocorre somente pelo fato de quem faz uso achar que a mesma vai ajudar no tratamento)?

O grande problema, para se avaliar o uso da acupuntura, são os estudos existentes que não são confiáveis e nem apresentam um número suficientemente grande de pacientes, o que enfraquece as conclusões sobre os mesmos. 

Baseado nestes dados, pesquisadores das Universidades da Califórnia e da Pennsylvania, na Philadelphia, Estados Unidos, analisaram diversas pesquisas sobre o assunto e publicaram suas conclusões na Fertility and Sterility, jornal da ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva) em junho de 2013.

As conclusões a que chegaram foram: 

1- O efeito placebo parece realmente existir em alguns casos.

2- Não existem estudos fortes o suficiente que comprovem os benefícios da acupuntura, nem em que período do tratamento de infertilidade a mesma deve ser usada. Porém, algum benefício parece existir e este pode ser pelo próprio tratamento ou somente pelo efeito placebo. 

Entretanto, pode haver um estresse associado à esta técnica, o que pode trazer danos à paciente.

Assim, a paciente deve ter acesso à acupuntura antes da FIV e deve sentir-se relaxada nas sessões, sem sentir nenhum estresse. Mais ainda, se for optado por realizar acupuntura no dia da transferência embrionária, está deverá ser realizada na própria clinica onde ocorrerá a transferência ou numa distância pequena da mesma, para se evitar situações de estresse. 

Portanto, a acupuntura é um método que pode ajudar a aumentar as taxas de gravidez, muito embora não se entenda como, desde que não provoque estresse para a paciente. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Finasterida e seus efeitos na fertilidade masculina


A finasterida, uma droga que bloqueia a formação de formas ativas da testosterona (o hormônio masculino) vem sendo utilizada desde os anos 90 para tratamento de problemas na próstata e sobretudo para tratamento da alopécia androgênica (queda de cabelo masculina), um mal que afeta milhares de homens, para este fim a mesma vem sendo largamente utilizada e seus efeitos na fertilidade masculina ainda não são tão claros.

O FDA (orgão que controla a liberação dos medicamentos nos Estados Unidos) não reporta nenhum efeito negativo da finasterida na fertilidade masculina, muito embora existam descrições de casos em que o seu uso tem provocado uma alteração negativa na produção dos espermatozóides, o que seria reversível após a parada da medicação. 
Entretanto, existem poucos estudos sobre esses efeitos.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, resolveu estudar mais a fundo os efeitos da finasterida na fertilidade masculina e publicou seus resultados na Fertility and Sterility, a revista da ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva) em dezembro de 2013.

Eles estudaram os efeitos desta medicação em homens inférteis e concluiram que há uma diminuição da motilidade (movimentação dos espermatozóides) e da concentração (número de espermatozóides), efeitos que desapareceram após três meses de parada da medicação. 

Esses efeitos parecem ser dose dependente. Em homens inférteis mesmo baixas doses, como as usadas na alopécia androgênica, trazem efeitos deletérios, mas existem estudos que demonstram que em homens com fertilidade normal, somente doses maiores trariam efeitos negativos, assim nesse grupo, as doses usadas para tratar a alopécia não provocariam problemas.

Os mecanismos pelos quais a finasterida provoca essas alterações não são completamente conhecidos, acha-se que a mesma atua alterando a espermatogênese (formação dos espermatozóides).

Em conclusão, parece ser benéfico parar o uso de finasterida para aqueles homens que têm alterações seminais e que estão tentando engravidar, já para homens sem alterações o uso da mesma em baixas doses parece não diminuir a fertilidade.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Antioxidantes x Qualidade seminal


Fortes evidências científicas sugerem que o excesso de radicais livres a nível testicular tem um papel importante na infertilidade masculina. Acha-se que quanto maior o estresse oxidativo menor seria a motilidade (movimentação) e concentração dos espermatozóides. Assim, o uso de antioxidantes (vitaminas A, C e E, por exemplo) teria um efeito positivo na qualidade seminal. Entretanto, pouco se sabe sobre que doses seriam as ideais para se obter um efeito positivo na produção espermática.

Baseado nisso, pesquisadores das Escolas de Saúde Pública e de Medicina de Harvard, em Boston, nos EUA e das Universidades de Copenhagen, na Dinamarca e de Murcia, na Espanha, realizaram um estudo para tentar identificar as relações entre o consumo de vitaminas A, C e E e de carotenóides (substâncias químicas que compõe os pigmentos de vegetais e são essenciais como precursores da síntese da vitamina A, como por exemplo o beta-caroteno, o licopeno e a luteína), tanto por meio de suplementos quanto pela dieta, na qualidade do sêmen. 

Os dados foram publicados na Fertility and Sterility, a revista mensal da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) em dezembro de 2013.

Foi encontrada uma relação positiva entre os carotenóides e a motilidade e morfologia (formas normais) dos espermatozóides, com uma forte associação entre o beta-caroteno e a luteína com uma melhor movimentação e concentração dos espermatozóides, enquanto o licopeno apresentou uma boa relação com a morfologia.

Os efeitos positivos do uso dos carotenóides é descrito em outras pesquisas, com dados que evidenciaram uma melhora da concentração em até 60%, da motilidade em até 43% e da morfologia em até 46% de homens inférteis.

Os carotenóides são derivados quase que exclusivamente de frutas e vegetais. Cinco fontes (sopa de tomate, suco de tomate, ketchup, salsa e tomates frescos) são responsáveis por 98% da ingesta de licopeno, três vegetais (cenoura, alface e espinafre) explicam 59% da ingesta de beta-caroteno enquanto o alface e o espinafre são resposáveis por 56% da luteina ingerida.

A alta ingestão de vitamina C foi associada a uma menor concentração e motilidade espermáticas, com uma queda de até 22% da concentração dos espermatozóides, embora esses achados não sejam ainda completamente compreendidos, quando se usou ácido fólico em conjunto, esses efeitos pareceram desaparecer. Não foi encontrada nenhuma relação, positiva ou negativa, entre as vitaminas A e E e os parâmetros seminais.

Parece que a ação da vitamina C é dose dependente, neste estudo altas doses tiverem pior resultado que doses menores, mas ainda é cedo para se dizer qual seria a melhor dose.

Esse estudo, ao contrário de outros, não demonstrou associações positivas entre vitaminas antioxidantes e qualidade seminal, mas foi ao encontro de estudos que também não demonstraram nenhum efeito positivo do uso de vitaminas A, C e E.

Ao não achar nenhum efeito entre vitamina A e E e qualidade seminal, fica uma pergunta. Por que alguns antioxidantes têm efeitos e outros não? Isto ainda não tem uma resposta.

Portanto, uma dieta balanceada, com uma ingestão equilibrada de antioxidantes pode ser importante para uma boa qualidade dos espermatozóides, devendo-se ter muito cuidado com o consumo excessivo. 

Equlíbrio, a chave para o sucesso.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Reprodução Assistida em Casais Homoafetivos



Diante de todas as mudanças nos últimos tempos, em que os direitos dos casais homoafetivos vêm sendo gradativamente incorporados às leis de tantos países, a busca desses casais por tratamentos de reprodução assistida vem aumentando significativamente e diversos tabus e preconceitos vêm continuamente desaparecendo. 

Para se ter uma ideia da mudança pela qual passamos, em 2011, 46% dos nascimentos nos EUA ocorreram de mulheres não casadas, independente de sua orientação sexual. Isso demonstra que a aceitação da sociedade no que diz respeito ao homossexualismo mudou muito. Estima-se que entre 6 a 14 milhões de crianças, nos Estados Unidos, têm crescido em famílias onde pelo menos um dos pais é homossexual.

Frente a uma série de debates sobre ética e ao uso da medicina reprodutiva com o intuito de gerar filhos para esses casais, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), por meio de seu Comitê de Ética lançou no mês de dezembro de 2013 sua opinião a respeito do uso das técnicas de reprodução assistida para casais homossexuais, além de expressar seu ponto de vista a respeito dos casais heterossexuais não casados e de pessoas solteiras que buscam esses tratamentos.

Os pontos chaves emitidos pelo comitê foram:

1- As pesquisas demonstram que o desenvolvimento dos filhos não difere quando se compara casais hetero e homossexuais.
2- Não há motivos para haver restrição ao acesso à reprodução assistida, baseada somente na orientação sexual.
3- Todos devem ser tratados de maneira igual frente aos tratamentos de reprodução assisistida.
4- A experiência vem demonstrando que não há prejuízos para os descendentes de casais homoafetivos e nem para a sociedade.

A Associação Americana de Psicologia não encontrou dados científicos que concluissem que os filhos de casais homoafetivos viveriam em ambientes menos saudáveis que os filhos de casais heterosexuais. As evidências sugerem que essa crianças apresentam a mesma capacidade de relacionamento social e que apresentariam a mesma qualidade de vida que a de crianças de casais heterossexuais, nem melhor nem pior.

Assim, o comitê conclui que não se deve negar a oferta de tratamentos de reprodução assistida a casais homoafetivos, a casais não-casados ou a pessoas solteiras homossexuais ou não.  O comitê acha, ainda, que existe uma obrigação ética e um dever legal de se tratar todas as pessoas igualmente, independente de sua orientação sexual. 

As conclusões da Comitê de Ética da ASRM vêm ao encontro das mudanças observadas na sociedade mudial nos últimos anos. 

Trata-se, em minha opinião, de uma pura e simples evolução natural da raça humana.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Peso x Qualidade dos Espermatozóides


Historicamente existe uma tendência em se associar obesidade com infertilidade ou subfertilidade masculina, muito embora os estudos demonstrem discordância quando tentam avaliar se o excesso de peso masculino piora a qualidade e quantidade dos espermatozóides.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, realizou uma pesquisa em busca de uma resposta. Os dados desse estudo foram publicados em dezembro de 2013 na Human Reproduction, a revista mensal da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia). 

Os achados demonstraram que a obesidade está ligada a uma redução da morfologia (formas normais) dos espermatozóides e a níveis mais baixos de testosterona (o hormônio masculino). 

Assim, quanto maior o grau de obesidade, os níveis de testosterona tendem a ser menores. Como esse hormônio é vital para produção de espermatozóides normais, a deficiência do mesmo é um dos fatores responsáveis pela piora na morfologia espermática. 

Esta é mais uma, dentre muitas pesquisas, que demonstra efeitos negativos do excesso de peso na fertilidade humana. 

Em conclusão, obesidade não combina com uma boa fertilidade.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Autismo e Reprodução Assistida


Desde o primeiro bêbe de proveta, no distante ano de 1978, muitas pesquisas tem tentado comprovar a segurança das técnicas de reprodução assistida (FIV- Fertilização in Vitro e  IIU - Inseminação Intrauterina).
 
Isso significa, entre outras coisas, uma busca por evidências do possível surgimento de problemas que possam atingir a prole, como as malformações fetais e a transmissão de doenças dos pais para os filhos. 

Um exemplo desta preocupação frente aos resultados da reprodução assistida foi um recente estudo realizado na Universidade de Pisa, na Itália.  Esta pesquisa foi publicada na Human Reproduction, a publicação mensal da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia) em dezembro de 2013 e tentou identificar as relações entre o autismo (doença caracterizada por uma disfunção global do desenvolvimento, afetando a capacidade de comunicação, de socialização e de comportamento) e as técnicas reprodução assistida. 

Os pesquisadores italianos não acharam nenhuma relação entre o autismo e os tratamentos de reprodução assistida, muito embora existam estudos que demonstrem alguma relação positiva, ou seja, uma maior incidência de autismo relacionada à reprodução assistida, mas esses são estudos com menor poder de confiança. Há, ainda, um estudo que achou uma relação negativa, ou seja, menor risco para autismo após os tratamentos. 

Em resumo, não parece, à luz das evidências atuais, haver relação entre autismo e reprodução assistida, muito embora novos e maiores estudos bem elaborados devam ser realizados. 

Diversas pesquisas continuam sendo realizadas no intuito de se descobrir todas as consequências dos tratamentos de reprodução assistida, mas, hoje, tem-se uma convicção que essas técnicas possuem um excelente nível de segurança.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fertilização in Vitro x Endometriose


Para iniciar o ano e dando seguimento ao assunto abordado e publicado neste blog em 24 de dezembro de 2013, vamos procurar entender um pouco mais sobre a patologia que mais gera controvérsias na área da infertilidade, a endometriose.


Existem fortes evidências que demonstram uma diminuição da função ovariana após a retirada cirúrgica da endometriose ovariana (os endometriomas). A resposta às medicações indutoras da ovulação nos ciclos de fertilização in vitro (FIV) apresenta uma diminuição importante após a cirurgia, especialmente se houverem endometriomas nos dois ovários. Por isso, existe uma tendência para que os endometriomas, sobretudo os assintomáticos (que não provocam dor pélvica) não devam ser removidos antes de uma FIV, por exemplo.

Tomando como base esta evidência científica, pesquisadores italianos e espanhóis, de Milão, Valência e Madri realizaram um estudo em pacientes com endometriomas bilaterais que realizaram uma fertilização in vitro, antes de terem sido submetidas a qualquer cirurgia. A pesquisa foi publicada em maio de 2013, na Fertility and Sterility, a revista mensal da ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva).

A resposta aos hormônios que estimulam os ovários na FIV foi menor nas mulheres com endometrioma bilateral, assim como o número de óvulos obtidos, quando comparado com mulheres sem endometriomas. Entretanto, a qualidade dos óvulos obtidos não foi diferente e mais ainda, as taxas de fertilização dos óvulos, o número de embriões de boa qualidade obtidos, as taxas de implantação dos embriões no útero e as taxas de gravidez foram similares entre os dois grupos comparados.

Esse estudo foi realizado em pacientes com endometriomas entre 2,2 a 2,3 cm. Esta é uma outra questão importante. Existiria um tamanho ideal pra se indicar a cirurgia de retirada dos endometriomas em pacientes inférteis ou com desejo futuro de gravidez? A grande dúvida persiste e o parâmetro de 03 a 04 cm seria o ponto de corte, acima do qual parece haver algum benefício da cirurgia, mas isso é ainda bem controverso.

A endometriose permanece um mistério, mas existem evidências cada vez maiores que operar endometriomas ovarianos não parece trazer benefícios para a fertilidade, pelo contrário, pode diminuir em muito a fertilidade devido à lesão ovariana causada pela remoção cirúrgica de áreas ovaríanas intactas.

À luz dos conhecimentos atuais, cautela é a palavra que define melhor como se deve proceder frente ao tratamento desta patologia de tão difícil manejo.