quinta-feira, 30 de abril de 2015

Uso de Soja e Fertillidade

As substâncias derivadas da soja, os fitoestrogênios, podem ser encontrados em vários medicações e suplementos. Essas substâncias apresenta efeitos estrogênicos, isto é, os mesmos efeitos do principal hormônio feminino, o estrogênio. Alguma pesquisas vêm ligando o consumo de fitoestrogênios, sobretudo a isoflavona, a um menor tempo para se atingir uma gravidez e também a melhores resultados em tratamentos de reprodução assistida, com a fertilização in vitro.

Pesquisadores de Harvard, nos Estados Unidos, analisaram as relações entre o consumo de fitoestrogênios e os resultados em reprodução assistida. Os dados desta pesquisa foram publicados em março de 2015, pela ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva).

Foram analisados 520 ciclos de fertilização in vitro. O consumo de soja foi associado a melhores taxas de fertilização, apresentando uma taxa 6% maior que em mulheres sem consumo dos derivados da soja. Além disso, foram observadas, também, melhores taxas de gravidez e nascimentos vivos, 11 e 13% a mais, respectivamente.

Os mecanismos pelos quais essas substâncias ajudariam os tratamentos de fertilização in vitro não são totalmente claros. Parece que o consumo dessas substâncias aumenta a espessura endometrial, favorecendo assim a implantação embrionária e a sobrevivência do mesmo. Entretanto, devem existir outros mecanismos que devem contribuir para uma melhora dos resultados nos ciclos de reprodução assistida, como uma melhora de qualidade de óvulos, espermatozóides e a interação desses. 

Mais pesquisas serão necessárias para que os efeitos positivos da soja na fertilidade e nos tratamentos de infertilidade sejam realmente comprovados, mas parece haver uma relação positiva. Teria-se, assim, uma substância simples e barata que poderia ser usada como complementação nos tratamentos de reprodução assistida.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Endometriomas e Perda da Reserva Ovariana

A endometriose, como já enfatizado anteriormente, é a principal causa de dor pélvica crônica e umas das principais causas de infertilidade feminina. A presença de endometriose nos ovários (os chamados endometriomas ovarianos) torna ainda mais difícil o manejo desta patologia, sobretudo no que se diz respeito à fertilidade.

A abordagem da endometriose ovariana deve ser muito bem planejada, visto que este órgão é a sede da fertilidade, onde se encontram todos os óvulos. Existe um consenso atual que só se deve indicar cirurgia para endometriomas maiores que 3/4 cm (em casos de infertilidade), mas ainda assim é necessário que se avalie a relação custo-benefício, devido aos danos que uma intervenção cirúrgica pode acarretar na reserva ovariana. Remover cirurgicamente um endometrioma ovariano pode levar à remoção da parte não afetada e portanto de óvulos sadios. O conceito de adiar-se a primeira abordagem cirúrgica ganha força quando se pensa na possibilidade de uma segunda ou múltiplas cirurgias no mesmo ovário (as taxas de recorrência são em média de 40-50% num período de 5 anos) o que provocaria um dano maior e irreversível na reserva ovariana. Em média 51% das pacientes são reoperadas, atualmente, um número excessivamente alto.

Baseado nestes fatos, pesquisadores da Universidade de Roma, na Itália, avaliaram os efeitos de uma segunda cirurgia em endometriomas recorrentes (que voltaram a aparecer no mesmo ovário). Os dados desta pesquisa foram publicados na Fertility and Sterility, a revista da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, no último mês de março.

Esta pesquisa demonstrou que os endometriomas recorrentes forma mais espessos que os primários e que mais tecido ovariano normal foi retirado juntamente como o endometrioma recorrente, houve também uma maior redução do volume ovariano e da contagem de folículos antrais (óvulos visíveis ao ultrassom nos ovários, considerado, hoje, uma das melhores avaliações de reserva ovariana) após a segunda abordagem cirúrgica. Após a primeira cirurgia não foram encontrados tais mudanças. A volta da dor foi similar após a primeira e a segunda cirurgias.

As explicações para um maior dano após a segunda cirurgia são muitas, como: a recorrência parece representar uma forma mais agressiva da doença, o ovário acometido já tinha sido lesionado na primeira cirurgia, a fibrose da primeira cirurgia dificulta a retirada do endometrioma recidivado.

Para finalizar, os autores desta pesquisa concluiram que deve-se ter muito cuidado antes de se indicar uma segunda abordagem cirúrgica para endometriose ovariana, devendo-se preferir o tratamento com medicações em caso de dor e o uso da fertilização in vitro em casos de infertilidade. Particularmente, eu vou mais longe, acho que se deve ter muito cuidado antes de se indicar a primeira cirurgia, visto que os danos podem ser maiores que os benefícios. Todas as pacientes devem ser orientadas e ter a consciência que a retirada da endometriose ovariana pode significar uma perda permanente e irreversível de sua fertilidade.

Adiar a primeira cirurgia pelo maior tempo possível deve ser o pensamento nos casos de infertilidade e de desejo de concepção futura.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Distúrbios do Sono x Ovários Policísticos


A SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos) é a alteração endocrinológica mais comum nas mulheres em idade fértil. Provoca ciclos anovulatórios (não ovulação) e consequentemente infertilidade. Está muito ligada à obesidade e sobrepeso e a alterações do metabolismo, como: resistência insulina, intolerância à glicose, diabetes mellitus e dislipidemias (alterações dos níveis de colesterol).

Engravidar para as mulheres que têm SOP pode ser um verdadeiro desafio. É preciso perder peso, realizar atividades físicas e ter uma alimentação balanceada para que as chances de gravidez aumentem e para ter menos complicações durante a gravidez.

Os distúrbios do sono, como a apnéia do sono (distúrbios respiratórios), parecem ser mais comuns nas mulheres com SOP, fator que provoca uma diminuição da qualidade de vida e um aumento do risco de problemas cardiovasculares e metabólicos, como o aumento da resistência insulínica (estágio pré-diabetes).

Pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, publicaram um estudo em fevereiro de 2015, na Human Reproduction, a revista da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) para avaliar a ligação entre ovários policísticos e os distúrbios do sono. Os achados deste estudo demonstraram uma incidência duas vezes maior de distúrbios do sono em mulheres com SOP quando comparadas com mulheres sem ovários policísticos, foi observado, por exemplo, uma maior dificuldade em se “cair no sono” e na manutenção de um bom sono.

Parece haver uma associação fraca entre IMC (Índice de Massa Corporal) elevado e  problemas no sono, enquanto parece haver uma forte relação entre sintomas depressivos nas mulheres com SOP e distúrbios do sono. Foi observado também um aumento da irritabilidade e do mau-humor associados a esses distúrbios.

Dados como estes são importantes para que possamos cuidar melhor da saúde mental e física das mulheres com SOP, permitindo um melhor controle desta patologia e de suas complicações. Esta é mais uma faceta da síndrome dos ovários policísticos, patologia muito comum e de difícil controle.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um pouco de informação sobre a fertilização in vitro


O primeiro bebê concebido pela técnica de fertilização in vitro (FIV) nasceu em 1978, na Inglaterra. Desde então, a evolução crescente do conhecimento, associada a melhorias nos processos clínicos e laboratoriais, tem proporcionado o sucesso na realização dos sonhos de muitos casais com dificuldades de procriação. Atualmente, contabilizam-se mais de 5 milhões de crianças concebidas por FIV em todo o mundo.
Inicialmente restrita às mulheres com obstruções das trompas, hoje a FIV tem sido indicada formalmente, embora de maneira individualizada, para casais cuja infertilidade pressupõe-se atribuída a fatores masculinos graves, disfunções ovarianas e endometriose. Entretanto, pode ser utilizada como opção terapêutica para qualquer casal, independentemente da causa da infertilidade.
Enquanto em outros tratamentos, como a inseminação artificial, o encontro entre o óvulo e o espermatozóide acontece dentro do corpo da mulher, na FIV ele ocorre fora do corpo da mulher, no laboratório. Por essa diferença essencial, aos bebês concebidos por FIV dá-se popularmente o apelido de “bebês de proveta”.
No preparo para a FIV, o casal deve passar por um processo cuidadoso de avaliação clínica, complementada por exames laboratoriais e de imagem, com intenção de se verificar a existência de causas para a infertilidade ou outros fatores que possam interferir no sucesso do tratamento. Também é de igual importância o acolhimento multidisciplinar, que oferece ao casal o suporte emocional fundamental e complementa as orientações médicas num processo que costuma ter altos custos emotivos, sociais, familiares e financeiros.
Uma vez que tenha sido devidamente avaliado e o protocolo de tratamento tenha sido individualmente delineado, o casal costuma passar por etapas comuns a todos os casais. São exemplos: estimulação ovariana controlada, captação e avaliação dos óvulos, apresentação dos óvulos aos espermatozóides, a identificação da fertilização dos óvulos, classificação dos embriões eventualmente obtidos e transferência dos mesmos para a cavidade uterina, entre outros. Assim, o sucesso do tratamento é obtido passo a passo, à medida que cada etapa é vencida.

As normas éticas que regem a reprodução assistida no Brasil permitem que se transfiram entre 2 e 4 embriões por vez, a depender da faixa etária da mulher. Dessa forma, é comum que o número de embriões formados no ciclo de tratamento exceda o número permitido – ou mesmo adequado – para transferência no mesmo ciclo. Esses embriões sobressalentes são congelados, normalmente depois de dois a seis dias de cultivo em laboratório, e podem ser utilizados em tentativas futuras, contemplando casos de insucesso ou de desejo de mais filhos. Há outros destinos possíveis aos embriões, que podem ser discutidos com o médico assistente.
O teste de gravidez costuma ser realizado entre 12 e 14 dias depois da transferência embrionária, quando se pode confirmar a ocorrência da gravidez, chamada bioquímica. A gravidez dita clínica será confirmada apenas depois de 2 a 4 semanas, pela identificação ultrassonográfica. Quanto às taxas de sucesso da FIV, segundo a Rede Latino-americana de Reprodução Assistida, diferem de acordo com a faixa etária da mulher no momento da coleta dos óvulos: 41% na faixa etária de 25 a 29 anos; 37% de 30 a 34 anos; 30% de 35 a 39 anos e 15% com 40 ou mais anos.

É muito importante deixar claro que todas as etapas e processos descritos acima são passíveis de modificação, a depender dos protocolos de tratamento definidos individualmente pelo médico assistente e das condutas estabelecidas por cada serviço especializado. Assim, de nada valerão as informações dadas neste texto na ausência de uma consulta médica e de uma visão personalizada de cada casal. Para casais tentando engravidar há mais de um ano, recomenda-se, então, buscar orientação especializada.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Endometriose parece não afetar a ovulação


A endometriose, temível doença que causa infertilidade e dor pélvica crônica, é motivo de controvérsias múltiplas quando se fala em manuseio, controle e tratamento. Atualmente, muitas pesquisas médicas vêm indicando tratamentos menos invasivos, ou seja, menos intervenção cirúrgica. Deve-se, portanto, ter um cuidado imenso antes de submeter uma paciente com endometriose a uma cirurgia, sobretudo se a mesma é infértil ou deseja preservar sua fertilidade para o futuro, especialmente quando a endometriose atinge os ovários, pois a remoção de cistos de endometriose desses órgãos pode provocar danos irreversíveis, com uma perda acentuada e permanente da reserva ovariana (perda dos óvulos necessários para uma gravidez). 

Baseado nestes dados, pesquisadores da Universidade de Genova, na Itália, estudaram os efeitos de endometriomas (cistos ovarianos de endometriose) na ovulação espontânea. Os resultados deste trabalho foram publicados em fevereiro deste ano na revista mensal da ESHRE (Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia).

O estudo incluiu mulheres em idade fértil, com ciclos menstruais regulares e com endometriomas unilaterais maiores que 2,0 cm, que estavam desejando engravidar.

A ovulação espontânea foi monitorizada em 1199 ciclos de 244 mulheres, a mesma ocorreu em 596 ciclos (49,7%) no ovário não afetado com endometriose e em 603 ciclos (50,3%) no ovário afetado. Estes dados foram confirmados, também, quando os endometriomas tiveram mais que 4,0 cm e até nos casos de endometriomas maiores que 6,0 cm. Destas mulheres, 105 engravidaram espontaneamente, uma taxa de 43%, considerada alta.

Portanto, essa pesquisa demonstrou que endometriomas unilaterais não atrapalham ou impedem a ovulação espontânea. Esta é mais uma evidência que demonstra o cuidado e a paciência que se deve ter no tratamento e manuseio da endometriose (especialmente a ovariana), sobretudo quando se trata de casos ligados à infertilidade. 

É preciso ter cuidado e saber indicar a hora correta para uma intervenção cirúrgica, tem-se que sempre pensar na possibilidade de dano excessivo à fertilidade, após a remoção da endometriose ovariana. 

Indicações cirúrgicas para endometriose existem. A intervenção cirúrgica é um dos tratamentos, mas é preciso que se individualize cada caso, na tentativa de postergar a primeira abordagem cirúrgica o máximo possível, pois se trata de uma patologia que não tem cura, apenas controle. 

Quanto mais tardia for a primeira cirurgia, menor a probabilidade de se ter a necessidade de outras intervenções.