quarta-feira, 29 de abril de 2015

Endometriomas e Perda da Reserva Ovariana

A endometriose, como já enfatizado anteriormente, é a principal causa de dor pélvica crônica e umas das principais causas de infertilidade feminina. A presença de endometriose nos ovários (os chamados endometriomas ovarianos) torna ainda mais difícil o manejo desta patologia, sobretudo no que se diz respeito à fertilidade.

A abordagem da endometriose ovariana deve ser muito bem planejada, visto que este órgão é a sede da fertilidade, onde se encontram todos os óvulos. Existe um consenso atual que só se deve indicar cirurgia para endometriomas maiores que 3/4 cm (em casos de infertilidade), mas ainda assim é necessário que se avalie a relação custo-benefício, devido aos danos que uma intervenção cirúrgica pode acarretar na reserva ovariana. Remover cirurgicamente um endometrioma ovariano pode levar à remoção da parte não afetada e portanto de óvulos sadios. O conceito de adiar-se a primeira abordagem cirúrgica ganha força quando se pensa na possibilidade de uma segunda ou múltiplas cirurgias no mesmo ovário (as taxas de recorrência são em média de 40-50% num período de 5 anos) o que provocaria um dano maior e irreversível na reserva ovariana. Em média 51% das pacientes são reoperadas, atualmente, um número excessivamente alto.

Baseado nestes fatos, pesquisadores da Universidade de Roma, na Itália, avaliaram os efeitos de uma segunda cirurgia em endometriomas recorrentes (que voltaram a aparecer no mesmo ovário). Os dados desta pesquisa foram publicados na Fertility and Sterility, a revista da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, no último mês de março.

Esta pesquisa demonstrou que os endometriomas recorrentes forma mais espessos que os primários e que mais tecido ovariano normal foi retirado juntamente como o endometrioma recorrente, houve também uma maior redução do volume ovariano e da contagem de folículos antrais (óvulos visíveis ao ultrassom nos ovários, considerado, hoje, uma das melhores avaliações de reserva ovariana) após a segunda abordagem cirúrgica. Após a primeira cirurgia não foram encontrados tais mudanças. A volta da dor foi similar após a primeira e a segunda cirurgias.

As explicações para um maior dano após a segunda cirurgia são muitas, como: a recorrência parece representar uma forma mais agressiva da doença, o ovário acometido já tinha sido lesionado na primeira cirurgia, a fibrose da primeira cirurgia dificulta a retirada do endometrioma recidivado.

Para finalizar, os autores desta pesquisa concluiram que deve-se ter muito cuidado antes de se indicar uma segunda abordagem cirúrgica para endometriose ovariana, devendo-se preferir o tratamento com medicações em caso de dor e o uso da fertilização in vitro em casos de infertilidade. Particularmente, eu vou mais longe, acho que se deve ter muito cuidado antes de se indicar a primeira cirurgia, visto que os danos podem ser maiores que os benefícios. Todas as pacientes devem ser orientadas e ter a consciência que a retirada da endometriose ovariana pode significar uma perda permanente e irreversível de sua fertilidade.

Adiar a primeira cirurgia pelo maior tempo possível deve ser o pensamento nos casos de infertilidade e de desejo de concepção futura.

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