quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Mitos e equívocos comuns sobre a fertilidade


Dúvidas sobre a fertilidade são muito freqüentes entre os casais que pretendem engravidar e é muito comum perceber as tentativas de facilitar a gravidez baseadas em certos mitos ou a partir de interpretações equivocadas das informações científicas disponíveis. É notória a circulação de conceitos distorcidos mesmo entre os profissionais de saúde.
Pois bem, tentarei esclarecer a seguir alguns mitos e equívocos reincidentes no cotidiano do aconselhamento reprodutivo, lembrando que textos na internet não diminuem, em hipótese alguma, a importância da consulta médica, tampouco a substituem.

A mulher é mais fértil no dia da ovulação
Instintivamente, somos levados a pensar que a mulher é mais fértil no dia da ovulação ou a partir desse dia. Entretanto, a literatura científica existente indica maiores chances de gravidez quando a relação sexual acontece dentro do intervalo que se inicia 5 dias antes da ovulação e termina no dia em que ela acontece. Assim, esse período de seis dias seria o período fértil.
Falando das chances de tudo dar certo com uma única relação sexual, a gravidez parece ser mais provável quando ela acontece 2 dias antes da ovulação. Mas, claro, ter mais de uma relação sexual nesse período de 6 dias, certamente, aumentará as chances de concepção.
Cabe uma informação importante neste ponto: o período fértil não se altera com a idade da mulher; o que se altera é a chance de engravidar, que diminui à medida que a idade avança. Dessa forma, com uma relação sexual isolada 2 dias antes da ovulação, a chance de gravidez de uma mulher com 35 a 39 anos de idade corresponde aproximadamente à metade da chance de uma mulher com até 26 anos.

É mais eficaz ter relações "dia sim, dia não"
Também muito comum é a ideia de que as chances de gravidez são maiores quando as relações sexuais acontecem em dias alternados, imaginando-se que ejaculações frequentes diminuiriam a quantidade de espermatozóides no esperma. Entretanto, não parecem existir também bases científicas para tal afirmação.
Ao contrário, os dados científicos demonstram que as chances de gravidez são praticamente as mesmas quando as relações são diárias ou no regime "dia sim, dia não". Em um estudo de mais de 9 mil amostras de esperma, demonstrou-se que o número de espermatozóides e a capacidade deles de nadar em direção ao óvulo permaneceram inalterados em homens saudáveis mesmo com ejaculações diárias.
É importante que os casais que desejam ter filhos saibam que as chances de sucesso aumentam com uma boa frequência sexual no período certo e que tanto faz ter relações diárias ou pular um dia entre elas. Dessa forma, as relações acontecerão de acordo com o desejo e a preferência a cada ciclo, tornando-se o processo mais prazeroso e as relações sexuais, menos medicalizadas.

A posição deitada facilita a gravidez
A posição adotada durante a relação sexual ou depois dela em nada se associa à ocorrência da gravidez. É comum a crença feminina de que permanecer deitada por vários minutos depois da relação (ou até mesmo elevar os quadris) evite que o sêmen escorra e, assim, favoreça o trabalho dos espermatozóides, mas não existe qualquer fundamento científico para isso. Estudos - até bem antigos - demonstram que os espermatozóides, uma vez depositados na vagina, podem já ter entrado no útero em menos de 2 minutos e que em 15 minutos já podem estar nadando nas trompas em busca do óvulo!

Lubrificantes íntimos prejudicam a concepção
Lubrificantes vaginais são muito utilizados para tornar mais confortável a relação sexual quando a lubrificação natural não ajuda. E, claro, há uma preocupação dos casais sobre a possibilidade de que levem a eventual prejuízo à concepção. Entretanto, o impacto verdadeiro sobre a fertilidade não está bem comprovado cientificamente, já que os efeitos negativos observados em laboratório não foram comprovados sobre os espermatozóides na prática. Assim, até que se prove o contrário, não se pode afirmar que lubrificantes íntimos modifiquem as chances de gravidez.

Definindo o sexo do bebê
A crença mais comum afirma que a relação sexual mais próxima à ovulação favoreceria a concepção de meninos e a relação mais distante da ovulação, a de meninas. Embora essa seja uma teoria muito disseminada, lamento dizer que para ela também não existe justificativa da ciência. Ou seja, não há nada que indique com força de evidência a ligação entre o dia da relação sexual, a ovulação e o sexo da criança gerada. Na verdade, o que existe é uma quantidade pequena de estudos, a maior parte deles realizada há mais de 15 anos, em pequenos grupos de pacientes, com resultados contraditórios, que não permitem consenso e tampouco servem para embasar uma orientação formal.

Os 40 anos de hoje são os 30 de ontem
Os avanços dos conhecimentos em saúde e o melhor acesso à informação sobre hábitos de vida saudável permitem hoje uma boa diferenciação entre os conceitos de idade e velhice. Daí, surge a ideia de que aos 40 anos as mulheres de hoje tenham uma saúde semelhante - ou até melhor - que a saúde das mulheres de 20 ou 30 anos de outrora.
Infelizmente, embora isso possa ser verdade para vários aspectos, é uma ideia falha com relação à fertilidade. Os números variam um pouco, mas dados científicos apontam que cerca de 75% das mulheres que iniciam as tentativas de engravidar aos 30 anos darão à luz um nascido vivo dentro de 12 meses, enquanto no máximo cerca de 45% engravidarão iniciando as tentativas aos 40 anos de idade.
Recentemente publicou-se um modelo matemático para estimar as chances de um casal ter o número de filhos pretendido de acordo com a idade da mulher ao iniciar as tentativas de gravidez. O modelo previu que casais com desejo de ter apenas um filho terão 90% de chance de tê-lo naturalmente se iniciarem as tentativas de gravidez até os 32 anos de idade da mulher. Mas quando o objetivo do casal é de conceber naturalmente dois ou três filhos, a mulher deve iniciar as tentativas aos 27 e aos 23 anos, respectivamente, sob risco de não ter sucesso iniciando em idades mais avançadas.

Escrito por Bruno Ramalho
Referências com o autor, pelo email: ramalho.b@gmail.com

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